Como falar sobre corpo e segredos com crianças pequenas
Um jeito simples e sem medo de ensinar seu filho pequeno sobre as partes íntimas do corpo, o toque que não pode e a diferença entre segredo bom e segredo ruim.

Use o nome certo das partes do corpo, ensine que as partes cobertas pela roupa de banho são íntimas e que ninguém pode tocar nelas, pedir para ver ou mostrar as suas, e explique a diferença entre segredo bom (surpresa) e segredo ruim (que dá medo ou vergonha). Segredo ruim sempre se conta para os pais.
Por que falar disso desde cedo
A maior parte dos abusos contra crianças é cometida por alguém que ela conhece. A criança que sabe o nome das partes do corpo, sabe que pode dizer não e sabe que segredo ruim se conta, tem muito mais chance de se proteger e de pedir ajuda. Falar disso não tira a inocência: dá à criança as palavras de que ela precisa.
Use o nome certo das partes do corpo
Ensine os nomes certos, do mesmo jeito que ensina “cotovelo” e “joelho”. Apelidos deixam a criança confusa e dificultam que um adulto entenda quando ela tenta contar algo.
A regra da roupa de banho
Uma forma simples de explicar: as partes do corpo que ficam cobertas pela roupa de banho são íntimas.
- Ninguém pode tocar nelas.
- Ninguém pode pedir para ver nem tirar foto.
- Ninguém pode pedir para a criança tocar ou olhar as partes íntimas de outra pessoa.
Explique as exceções de forma clara: os pais na hora do banho, quando ela é pequena, e o médico, sempre com o pai ou a mãe junto.
Segredo bom e segredo ruim
- Segredo bom é surpresa: o presente de aniversário, a festa do vovô. Um dia todo mundo vai saber, e ele deixa a criança feliz.
- Segredo ruim é o que deixa a criança com medo, vergonha ou confusa, e que alguém pede para guardar “para sempre”.
A regra é: segredo ruim sempre se conta para os pais, mesmo que a pessoa tenha dito que algo ruim vai acontecer, e mesmo que seja alguém da família.
O corpo é dela
Deixe a criança dizer não a beijo ou abraço que ela não quer, inclusive de parentes. Ela pode cumprimentar com um aceno ou um “toca aqui”. Assim aprende que pode dizer não para um adulto quando algo a deixa desconfortável.
Como conversar sem assustar
- Converse em momentos tranquilos: no banho, antes de dormir, lendo uma história.
- Use frases curtas e repita de vez em quando.
- Faça perguntas de “e se”: “e se alguém pedir para você guardar um segredo que te deixa triste, o que você faz?”.
- Elogie sempre que ela contar alguma coisa, mesmo pequena. Ela precisa saber que contar é seguro.
Sinais de alerta
- Mudança de comportamento brusca: medo de uma pessoa ou de um lugar, pesadelos, voltar a fazer xixi na cama.
- Conhecimento ou brincadeiras sexuais que não combinam com a idade.
- Presentes ou segredos com um adulto específico.
Se perceber, acolha com calma, acredite na criança e procure ajuda.
O que a lei diz
Aliciar, assediar ou constranger menor de 14 anos com intenção sexual é crime previsto no art. 241-D do Estatuto da Criança e do Adolescente. Quem suspeitar de abuso pode denunciar de forma anônima pelo Disque 100.
Onde pedir ajuda ou denunciar
- Perigo agora: ligue 190 (Polícia Militar).
- Disque 100: canal do governo federal para denunciar violência contra crianças e adolescentes. Funciona todos os dias, a ligação é gratuita e pode ser anônima.
- Conselho Tutelar da sua cidade.
- Crimes na internet: guarde prints com data, nome do perfil e número, e leve à delegacia (de preferência a de crimes cibernéticos) ou denuncie na SaferNet Brasil.
Perguntas frequentes
Com que idade começar a falar sobre o corpo?
Desde pequenininha, a partir dos 2 ou 3 anos, com o nome certo das partes do corpo. A regra da roupa de banho e a dos segredos funcionam bem a partir dos 3 ou 4 anos.
Falar disso não vai assustar meu filho?
Não, se for com calma, em frases curtas e como parte da rotina. A criança recebe a conversa como recebe a de atravessar a rua: é uma regra de cuidado.
Meu filho pode recusar abraço de parente?
Pode. Deixe que ele cumprimente de outro jeito, como um aceno. Assim ele aprende que o corpo é dele e que pode dizer não.
Este guia foi escrito por Igor Fagundes Lemos, fundador da Central, empresa que criou o Guardiões da Família e a Proteção Contra Golpe 24h. Ele traz orientações gerais e não substitui a ajuda de um profissional, do Conselho Tutelar ou da polícia em casos concretos.


