Como ensinar a criança a não falar com estranhos
Um guia prático, por idade, para ensinar seu filho a dizer não a um estranho, sair de perto e correr para você, sem deixar a criança com medo de tudo.

Ensine três ações simples (dizer não, sair de perto e correr para um adulto de confiança), treine em forma de brincadeira, com situações curtas e repetidas, e adapte a conversa à idade. Repetir em casa funciona melhor do que dar um sermão uma vez só.
Por que só dizer “não fale com estranhos” não funciona
Para uma criança, estranho é alguém “feio” ou “mal-encarado”. Quem quer levar uma criança costuma ser simpático, chamar pelo nome, oferecer doce, pedir ajuda para achar um cachorrinho ou dizer que foi a mãe que mandou buscar. A criança não sabe que aquilo é perigoso porque ninguém mostrou como o perigo aparece.
Por isso, em vez de uma regra solta, ensine o que fazer quando alguém que ela não conhece chega perto.
As 3 ações que toda criança precisa saber
- Dizer não, em voz alta. “Não, eu não vou.” A criança tem permissão de ser “mal-educada” com um adulto que ela não conhece.
- Sair de perto. Não ficar conversando, não chegar perto do carro, não pegar o que for oferecido.
- Correr para você ou para um adulto de confiança e contar o que aconteceu. Combine que ela nunca vai levar bronca por contar.
Como falar sobre isso em cada idade
De 4 a 7 anos
- Use histórias e faz de conta: “e se um moço oferecer um sorvete na praça, o que o herói faz?”.
- Ensine a diferença entre segredo bom (surpresa de aniversário, que um dia todo mundo vai saber) e segredo ruim (o que deixa a criança com medo ou vergonha). Segredo ruim sempre se conta para os pais.
- Ensine o nome certo das partes do corpo e que ninguém pode tocar nelas nem pedir para ver.
- Treine o seu nome completo e o seu telefone, de forma que ela consiga repetir.
De 8 a 12 anos
- Nessa idade o estranho também aparece no celular: em jogos, no Discord, no WhatsApp e nas redes.
- Explique que ninguém de verdade pede foto, código que chegou por mensagem, dinheiro, Pix ou encontro escondido.
- Combine uma senha da família para quem for buscá-la sem aviso.
- Peça que ela conte quando alguém insistir, mesmo que pareça “legal”.
Treine como brincadeira, não como ameaça
Criança aprende fazendo. Faça encenações curtas: você é o “moço do doce” e ela pratica o “não, eu não vou” e corre até um ponto combinado da casa. Dez minutos, várias noites seguidas, rendem mais do que uma conversa séria e assustadora. No fim, elogie: ela precisa sentir orgulho de saber se proteger, não medo do mundo.
Sinais de que um adulto está tentando ganhar a confiança da criança
- Presentes, doces ou dinheiro sem motivo.
- Pedidos de segredo: “não conta para a sua mãe”.
- Tentativas de ficar a sós com a criança.
- Muita atenção de repente, por mensagem ou pessoalmente.
Se perceber algum desses sinais, converse com seu filho com calma e, se for o caso, procure ajuda.
O que a lei diz
Aliciar, assediar ou convidar criança menor de 14 anos com intenção sexual, por qualquer meio, é crime previsto no art. 241-D do Estatuto da Criança e do Adolescente. Desde a Lei 15.487/2026, a pena é maior quando o criminoso usa perfil falso, jogos on-line ou aplicativos de mensagem.
Onde pedir ajuda ou denunciar
- Perigo agora: ligue 190 (Polícia Militar).
- Disque 100: canal do governo federal para denunciar violência contra crianças e adolescentes. Funciona todos os dias, a ligação é gratuita e pode ser anônima.
- Conselho Tutelar da sua cidade.
- Crimes na internet: guarde prints com data, nome do perfil e número, e leve à delegacia (de preferência a de crimes cibernéticos) ou denuncie na SaferNet Brasil.
Perguntas frequentes
Com que idade começar a ensinar sobre estranhos?
A partir dos 3 ou 4 anos já dá para começar, com histórias e brincadeiras curtas. A conversa muda com a idade: aos 8 a 12 anos inclua o celular, os jogos e as redes.
Ensinar sobre estranhos deixa a criança com medo?
Não, se for em forma de brincadeira e com foco no que ela deve fazer. O objetivo é a criança se sentir capaz de se proteger, e não ter medo de todo mundo.
E se o perigo for alguém que a criança conhece?
Por isso a regra do segredo ruim é tão importante: qualquer adulto, conhecido ou não, que peça segredo ou toque no corpo dela deve ser contado aos pais.
Este guia foi escrito por Igor Fagundes Lemos, fundador da Central, empresa que criou o Guardiões da Família e a Proteção Contra Golpe 24h. Ele traz orientações gerais e não substitui a ajuda de um profissional, do Conselho Tutelar ou da polícia em casos concretos.


